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Desafio

Saúde Pública: A relação entre o abuso de álcool e drogas com a deficiência

Sabemos hoje, por conta de diversas pesquisas e evidências científicas, que o uso de álcool e drogas na gravidez podem acarretar má-formação no feto e levar este a uma possível deficiência. De tal forma, medidas preventivas que possam alertar a população de forma consistente devem ser transmitidas e executadas por entes públicos. 

Diante deste conhecimento, se levantam os seguintes questionamentos:

Quais são os riscos do uso de álcool e drogas na gestação? Qual é a real importância da prevenção para reduzir os índices de deficiências causadas por fatores não genéticos?

 

  • Álcool

Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) e liderada pelo geneticista João Monteiro Pina Neto fez novas constatações a respeito das origens da deficiência. Segundo estimativas levantadas por esta pesquisa, metade das deficiências são causadas por fatores não genéticos.

Este estudo tinha como objetivo conhecer os fatores de risco de deficiências, para assim compreender de forma ampla possíveis projetos de prevenção.

A pesquisa foi realizada no interior de São Paulo e usou como foco crianças internadas nas Associações dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes). Para validar as premissas, foram realizadas avaliações psicossociais e médicas, com ênfase no exame neurológico e genético-clínico, heredogramas e detecção de famílias com múltiplos afetados e consanguinidade, exames genéticos, cariótipo, DNA e bioquímicas, exames de imagens como ressonância e tomografia.

Constatou-se, previamente, que entre as mulheres grávidas que fizeram pré-natal nas Unidades Básicas de Saúde, de 10% a 30% destas faziam uso regular de álcool durante a gestação. A partir disso, foi encontrado um número expressivo de crianças com deficiência cujo uso nocivo de álcool desencadeou sua condição. Constatou-se também que 45% dos estudantes das Apaes tinham deficiências causadas por fatores não genéticos, como o uso de álcool ou drogas, infecções, doenças e falta de oxigênio para o feto. 

O autismo, por exemplo, já é comprovado cientificamente como uma condição amplamente relacionada com o consumo de álcool na gestação. Além do autismo, é possível mencionar como consequência do uso álcool na gestação a Síndrome Alcoólica Fetal, que causa má formação no feto. Esta faz com que a criança nasça com nariz achatado, pálpebras pequenas, lábio superior muito fino e orelhas baixas.¹ 

No município de Batatais foram feitos 646 questionários entre os anos de 2003 e 2005, e entre 96 mulheres entrevistadas que fizeram menção ao uso de álcool, confirmaram o uso de álcool ou outro tipo de droga – ou os dois juntos. Nos aspectos de depressão ou ansiedade, 10% das mulheres usuárias de álcool ou drogas apresentaram algum tipo de psicose, tendo algumas destas até mesmo dois filhos lesados.

 

  • Drogas

Já na perspectiva das drogas, estudos apontam que a cocaína é responsável por malformações como microcefalia, defeitos no sistema límbico, anormalidades no trato geniturinário e atraso de desenvolvimento neuropsicomotor, através da isquemia e anóxia causa redução de membros, atresia intestinal, enfartes intestinais e anomalias geniturinárias. A cocaína é altamente associada a deficiências auditivas.² 

O crack, por sua vez, tem o efeito potencializado pela gravidez. A droga age rapidamente no corpo, atravessando de forma mais ágil a barreira placentária e causando más formações urogenitais, cardiovasculares e do sistema nervoso.

É necessário mencionar também que tanto o crack quanto a cocaína predispõem o feto a nascer com síndrome de abstinência.

Outras drogas como anfetamina e nicotina são capazes de serem transferidos juntamente com nutrientes que vão para o feto. De tal forma, a distribuição de nutrientes para o feto é reduzida, reduzindo também o potencial de crescimento deste.

Entre as complicações fetais pelo uso de drogas na gestação, estas apontadas por acadêmicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é possível mencionar: prematuridade, baixo peso ao nascer, diminuição do perímetro cefálico e deslocamento da placenta. Alguns destes aspectos podem ocasionar aborto espontâneo na gestante.

 

A importância da prevenção

Os pesquisadores envolvidos na anteriormente mencionada pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto apontaram que, em países como os Estados Unidos, os serviços pré-natal possuem melhor qualidade, fazendo com que os fatores não genéticos que levam à deficiência sejam até mesmo três vezes menores que no Brasil.

Desta forma, é necessário frisar a importância dos serviços pré-natal, disponibilizados previamente pelo Sistema Único de Saúde. Estes devem ser feitos com a regularidade indicada pelo órgão. 

A conscientização da gestante em situação de uso de alguma droga, lícita ou ilícita, é uma medida de prevenção também significativa. Ao conhecer os riscos trazidos pelo uso irrefletido de drogas durante a gravidez, a gestante torna-se mais competente em mensurar as medidas necessárias para impedir com que a saúde de seu filho seja acometida.

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