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Desafio

Carta do Especialista | A ritualização do ensinar: o legado de Pessach além da liberdade

Por Heloisa Pait

A destruição do Segundo Templo de Jerusalém no ano de 70 d.C. levou a uma enorme reconfiguração do judaísmo: a vida passou a se dar em torno de sinagogas espalhadas pelo mundo antigo onde rabinos interpretavam o livro sagrado, enquanto antes sacerdotes e juízes exerciam funções políticas e administrativas centralizadas em torno do templo. O ritual de Pessach, antes celebrado com o sacrifício de um animal seguido de um jantar festivo comemorando a libertação do Egito, passou a constituir-se numa refeição cheia de leituras e símbolos. A Hagadá, um livro contendo a narrativa do êxodo, assim como as instruções para o longo ritual, já existia e era copiada no século III, para que as famílias pudessem, em suas casas, organizar o jantar tal qual os rabinos prescreviam. Lembre que nesse época a alfabetização de todos os meninos era obrigatória entre os judeus, portanto sentados à mesa estariam vários participantes letrados.

Do antigo cordeiro sobrou apenas um osso, no centro da mesa, ao lado de outros alimentos simbólicos que fazem referência à experiência egípcia e às durezas da vida nômade que precederam a chegada à terra prometida. A grandeza do Segundo Templo, construído com a generosidade dos reis persas Ciro e Dario, onde eram feitas as oferendas da população judaica, foi substituída pelas mesas familiares onde a antiga narrativa seria passada de geração para geração. A Hagadá de quase 2 mil anos não é muito diferente da que famílias judaicas pelo mundo inteiro hoje seguem atualmente. E mesmo as brigas a respeito do modo como conduzir as rezas parecem ter se dado ontem, como hoje. Judeus seculares e estudados continuam celebrando essa festividade, talvez por tradição, pela ênfase na liberdade, pelo reforço da identidade ou por outra razão particular.

A reformulação mais fascinante da festa de Pessach foi a inclusão de perguntas feitas por hipotéticos 4 filhos para conduzir as explicações sobre a importância da festividade ao longo do jantar. Os filhos são retratados, nos estudos dos rabinos de então e na Hagadá, de modos distintos. Há um filho inteligente, que faz uma pergunta ampla sobre a festa e seu contexto: ele sabe o que perguntar e os adultos devem apenas saciar sua sede de saber. Há o filho rebelde, que faz uma pergunta sarcástica a respeito da festa, divorciado de seu significado: para esse, é importante lembrar que ele também é parte do drama egípcio, não é mero espectador. Há um terceiro filho simplório, que faz uma pergunta muito básica: para esse, o importante é ser claro na descrição do evento e sintético na explicação de seu significado. E, por fim, há um filho que não pergunta nada: ele precisa ser instado a se questionar a respeito daquele evento de que participa.

Vejam que virada dramática deram aqueles rabinos pioneiros dos séculos I, II e III. Os rituais viraram uma aula não apenas sobre um evento dramático da história de um povo, o que já nos bastaria, como diz uma canção desta mesma festa, mas uma aula sobre como ensinar! Os “tipos ideais” estudantis com os quais os pais e rabinos se deparavam não são tão diferentes assim de nossos filhos e alunos: temos que instigar uns e apenas responder a outros; temos que simplificar para uns e admoestar outros, não temos? A libertação dos judeus do Egito passa a ser a matéria da aula e o reforço da identidade judaica que a festa certamente propõe passa a se dar em torno do texto e da narrativa, o que não é exatamente novidade, já que o livro e a história sempre foram centrais na vida deste povo, mas também em torno do próprio narrar e ensinar.¹²³

Por que nessa festa os jovens fazem perguntas para os pais, poderia perguntar um quinto filho. E o pai responderia: porque cada um tem um modo de aprender a história, sem a qual ele não consegue se tornar um adulto pleno, e só sabemos como ensinar se cada jovem nos disser como podemos fazê-lo. Os rabinos, de modo deliberado, criaram um ritual não apenas de reforço da identidade judaica, necessária num momento em que haviam perdido o elemento concreto aglutinador de seu povo, o Segundo Templo, mas também de assimilação de uma história comum através da educação das novas gerações. Ritualizaram o aprender e associaram-no com a busca de uma vida autônoma e melhor: com os quarenta anos de errância no deserto.  Nessa festa de Pessach, devemos pensar portanto não só em sua própria simbologia, mas também no lugar que a educação ocupa em nosso sistema de valores, em nossos rituais, em nossas preocupações. Devemos também pensar até que ponto estamos ouvindo nossos estudantes a fim de podermos compreender qual papel eles precisam que nós, adultos, desempenhemos.

 

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