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Desafio

População em situação de rua e uso de drogas

Mesmo diante do fato de que a parcela da população de rua que faz uso de drogas não represente uma maioria – apenas 35% são dependentes químicos, segundo pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – falar sobre a relação de pessoas em situação de rua e o uso de drogas é um debate significativo.   

Usualmente, o uso de drogas é um dos maiores motivos que direcionam os veículos da mídia a mencionarem questões interligadas com a situação de rua. É, também, um dos fatores que promovem ocorrências de violência contra estes indivíduos, uma vez que a pessoa em situação de rua é frequentemente rotulada como drogada ou criminosa.

De tal forma, o debate a respeito do uso de drogas na rua deve ser levantado, embora não deva ser homogeneizado. Esta questão deve ser trazida a partir de diferentes abordagens que mostram diferentes perspectivas, como:

 

Quando a rua leva às drogas

O uso de drogas no caso da situação de rua é compreendido como um fator diretamente relacionado à vulnerabilidade da condição das ruas. Desamparadas pelas condições de moradia, pessoas em situação de rua estão frequentemente expostas à violência física, pobreza extrema e agressões morais. Aliada à vulnerabilidade, existe o sentimento de impotência, no qual as dificuldades vividas não levam estes indivíduos a maiores expectativas do futuro. É neste ponto que o uso de drogas surge como alternativa.

Pesquisadores da psicologia entendem, hoje, o uso de drogas nas ruas como uma tentativa de fuga da realidade vivenciada. Uma vez que a realidade vivida por estas pessoas é constituída por inúmeras dificuldades, a fuga de realidade se torna uma forma de proteção e distanciamento da condição na qual se encontram. As drogas vêm, então, como uma ferramenta que, supostamente, pode suprir este vazio.¹

As drogas, em via de regra, são agentes que atuam no organismo humano trazendo estímulos prazerosos que geram mudanças nos neurotransmissores, os responsáveis pela comunicação entre os neurônios. Elas trazem um sentimento de falsa felicidade e falso prazer, que fazem com que o usuário se afaste temporariamente da realidade e as usem como um instrumento de gratificação imediata. Diante das faltas que o mundo impõe à parcela da população em situação de rua, os que fazem uso de drogas muitas vezes o fazem pela opção de fugir momentaneamente de sua condição.

 

Quando as drogas levam às ruas

Diversos relatos divulgados de pessoas em situação de rua têm a mesma narrativa: indivíduos que deixaram ou perderam suas casas por conta do vício em álcool ou drogas. Uma parcela das pessoas em situação de rua é composta por indivíduos instruídos – desde ex-advogados até ex-pilotos de avião – que tiveram suas vidas drasticamente modificadas por conta dos vícios. 

Muitos destes indivíduos se reúnem em regiões quais o consumo de drogas tem grande incidência. Na cidade de São Paulo, um dos grandes polos de uso de drogas foi, durante muitos anos, uma região central comumente referida como Cracolândia.²

Embora estes indivíduos – que foram levados às ruas por conta das drogas – sejam uma minoria, existem diversos relatos de pessoas que passaram por esta situação. 

A semelhança entre estes dois grupos mencionadas pode ser dada pela questão do vazio existencial. Em ambos os casos, frustrações pessoais levam estas pessoas à busca pelo prazer através do entorpecimento. 

 

Consequências e medidas

O uso de drogas nas ruas tem diversas consequências conhecidas. Por inúmeros fatores, a saúde de quem mora nas ruas geralmente tem maior predisposição à deterioração – desta forma, as drogas despontam como agente que piora ainda mais esta conjuntura.

Além disso, o vício em drogas pode ser reconhecido como um fator que dificulta o indivíduo a sair das ruas. Perante o vício, torna-se ainda mais árduo para a pessoa em situação de rua encontrar soluções que possam a tirar deste ambiente, como empregos ou até mesmo abrigos para pernoitar. 

Como soluções nacionais, eixos específicos da Assistência Social realizam, em todo o país, abordagens nas quais tentam fazer com que estas pessoas façam tratamento contra o vício de forma voluntária. A internação compulsória, ato no qual o indivíduo é internado sem consentimento próprio ou de sua família, é um tema controverso. Nesta última modalidade, existe oficialmente um menor registro de internações feitas. 

Acredita-se hoje que a vontade do indivíduo em se livrar da dependência é o um dos maiores fatores de sucesso do tratamento. Por este motivo, a internação compulsória não é recomendada por diversos especialistas.

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