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Medellín: Cultura de paz no Combate à Violência

Atualmente Medellín é considerada uma das cidades mais seguras da Colômbia, mas nem sempre foi assim. Nas décadas de 1980 e 1990, porém, o quadro era muito diferente. Reclusos sob o poder de narcotraficantes, de bandos guerrilheiros, de grupos paramilitares e de criminosos que criaram um estado paralelo e impuseram suas leis, os moradores viam como única opção abandonar a cidade. Os que ficavam estavam suscetíveis à onda de violência. Na época, Medellín apresentava uma taxa média anual de 381 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto a média mundial girava em torno de 10 para 100 mil. Chegou a ser considerada uma das cidades mais violentas do mundo. As tentativas passadas de resolver a questão da violência somente por meio da repressão não trouxeram resultados satisfatórios.

 

Plano de Segurança Cidadã:

A principal resposta para a redução da criminalidade foi um plano de segurança cidadã, inclusão social e respeito à vida implementado a partir de 2004, que baixou para 20 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2015. O município percebeu que era importante investir no social, mas sem esquecer a necessidade de uma polícia ostensiva, porém preparada, motivada e remunerada de forma digna. Para virar cidade modelo é preciso entender a importância da liderança.

Todos os atores importantes para a construção dessa política de cultura de paz foram convocados a atuar de forma articulada – Governo Federal, Ministério Público, Comando da Polícia, organizações de direitos humanos e a sociedade civil.

O trabalho articulado revolucionou Medellín a partir de melhorias dos espaços públicos nos bairros mais pobres, investindo em arquitetura e urbanismo, criando e revitalizando espaços de convivência, aumentando orçamento em educação, garantindo acesso à educação de qualidade a todas as crianças, acesso à justiça, transporte e uma intensa campanha de cultura de paz. A construção de bibliotecas e parques para servir de ponto de encontro tanto quanto de leitura também foi primordial para esta revolução na cidade.

A iniciativa resultou em um movimento de arquitetura inclusiva, impactando a autoestima dos moradores da cidade. Milhares de pessoas, antes sem oportunidades de lazer, passaram a frequentar os centros culturais.

Com a premissa de que as pessoas precisam se deslocar para o trabalho de forma rápida e barata, foram implementados projetos urbanísticos, como o "metrocable" e o sistema de escadas rolantes, que facilitaram a vida dos moradores das comunas. O termo é utilizado para mencionar um conglomerado de favelas, que estão a mais de 1,8 mil metros acima do mar. Décadas de migração das famílias do campo para a área urbana fizeram que as montanhas ao redor da cidade fossem tomadas por bairros muito pobres, em contraste com os bairros bem planejados da Medellín central. A Comuna 13, por exemplo, é a maior favela da cidade e a região que mais sofreu com a guerra entre o narcotráfico e o poder militar. Hoje, ela chega a ser um ponto turístico por sua vista.

A prefeitura também reassentou moradores de áreas de risco, entregou títulos gratuitos de propriedades, legalizou ocupações e iniciou um inventário para reparar judicialmente as vítimas da guerra contra as drogas.

Em Medellín, as transformações também só foram possíveis graças à boa relação entre os setores público e privado. Isso começou a ser construído em 2002, com a criação de um comitê universidade-empresa-Estado. Acadêmicos, empresários e políticos passaram a se reunir para buscar soluções conjuntas para os problemas. Todos saem das reuniões com tarefas e compromissos. Sucessivos prefeitos — a maioria sem partido — deram continuidade aos planos das administrações anteriores porque as políticas públicas são construídas em consenso com a ajuda do comitê e não sofrem com as disputas partidárias.

Com a redução da violência, os indicadores econômicos de Medellín deram uma virada. Desde 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) da região vem crescendo acima de 3% ao ano. No mesmo período, o número de empresas grandes e médias registradas em Medellín subiu de 1 800 para mais de 3 000. O movimento nos aeroportos passou de 2,1 milhões para mais de 4,2 milhões de passageiros por ano. E o desemprego caiu de 12,8% para 9,6%. Os indicadores sociais e de bem-estar também melhoraram. A desigualdade caiu em ritmo maior que o do país, e a taxa de pessoas abaixo da linha de pobreza saiu de 25%, em 2008, para 14%, uma das menores entre as grandes cidades colombianas. Mas o maior ganho é visto na expectativa de vida — de 2001 a 2016, subiu de 71,4 anos para 77,8. Entre os homens — as maiores vítimas de homicídios — aumentou ainda mais: de 68,2 anos para 76,4.

Medellín parece ter acertado nas decisões, ao manter um sistema forte de repressão contra o tráfico local, que contribuiu para uma redução nos índices a curto prazo, e ao implementar políticas sociais, em parceria com os diversos setores da sociedade, que resultam em um projeto de cultura de paz perene.

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