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Desafio

Desafios e estratégias nos diversos níveis de educação

Os desafios na educação básica são inúmeros, e muitas vezes estão atrelados a problemas que ocorrem em etapas anteriores de ensino. Os alunos desenvolvem continuamente, ao longo dos anos, suas capacidades e competências, cognitivas e emocionais. Já na primeira infância, ou seja, durante a educação infantil, a criança começa a descobrir a si mesma, seu meio social e natural.

 

Primeira Infância

Nos primeiros anos de vida que as funções executivas — definidas como as habilidades que viabilizam reflexões deliberadas e ponderadas — são mais significativas para o desenvolvimento da criança. Estas funções são indispensáveis para o desenvolvimento da autonomia da criança, ou seja, para que ela seja capaz de assumir as consequências de suas decisões e responsabilidades - habilidades fundamentais para sua inserção na sociedade. Ademais, a autonomia permite que ela gradualmente passe a desenvolver respostas emocionais maduras para situações de medo e estresse, além de ferramentas para tomar decisões responsáveis no curto e longo prazo. Tudo isso tem grande impacto sobre a aprendizagem, comportamentos e até a saúde da criança.

É preciso que, durante todo o período de a transição para o Ensino Fundamental, já exista uma comunicação eficaz entre as crianças, os professores das diversas etapas da educação infantil, os colegas e os pais. As práticas educacionais devem ser individualizadas para as crianças e suas famílias desde a pré-escola, ou seja, antes mesmo do primeiro dia do Ensino Fundamental. Diversos aspectos do contexto familiar – como a qualidade do relacionamento dos pais, por exemplo, ou a relação deles com os filhos – devem ser abordados em reuniões frequentes, e quaisquer problemas devem ser discutidos prontamente – se possível, antes mesmo do ingresso na nova fase.

Além disso, é recomendável que a alfabetização das crianças comece a ser trabalhada já na pré-escola, tendo em mente essa transição e o sucesso escolar da criança. A qualidade do ambiente de sala de aula deve ser desenvolvida de modo a atender às necessidades das crianças da melhor forma possível. E isto envolve não apenas o fornecimento de infraestrutura adequada como a formação do professor em relação às práticas de transição como, por exemplo, as competências interpessoais para acolher e acompanhar os alunos nesse período.

 

Ensino Fundamental – Anos Iniciais

No começo dos Anos Iniciais, entre os cinco e oito anos de idade, a criança realiza, do ponto de vista cognitivo, a transição entre o estágio que Piaget denominou pré-operacional e o estágio operacional concreto. No primeiro, a criança dispõe de uma inteligência pré-lógica e, para adaptar-se às novas situações, se vale do mecanismo da intuição, definido como “o estágio em que as crianças parecem fazer julgamentos imediatos sem passos mentais conscientes em sua formulação”.  O pensamento está sujeito à confusão entre a aparência e realidade e a criança, nesta etapa, é capaz apenas de focar em um aspecto da realidade de cada vez. Isto a torna egocêntrica já que ela tem dificuldades de assumir o ponto de vista do outro. Com o passar dos anos, ela desenvolve o autocontrole, a capacidade de avaliar situações sob mais de uma perspectiva e a conseguir comparar situações diferentes.

A criança se torna cada vez mais capaz de diferenciar entre aparência e realidade, considerar simultaneamente vários aspectos de um problema e perceber o ponto de vista do outro. Esse desenvolvimento é fortemente estimulado pelas interações com os colegas, cuja companhia auxilia também na geração de sensações de segurança e proteção contra situações de estresse. Em suma, essa é uma das fases mais importantes para o sucesso escolar no Ensino Básico, pois é quando se criam as bases para o futuro desenvolvimento do aluno. É também nesta etapa que a criança é alfabetizada e passa a desenvolver sua proficiência e competências nas diversas áreas do ensino.

De acordo com Piaget, durante o período operatório concreto que ocorre, aproximadamente, entre os sete e 11 anos, as crianças ainda pensam em termos concretos e têm dificuldade em fazer abstrações. Isso significa que eles estão mais preocupados com coisas que são palpáveis, extensas no mundo material e não com ideias, ou seja, coisas que podem ser identificadas com os sentidos. As crianças começam a ler mais e a apreciar a leitura. Entre os dez e 11 anos, ou seja, no Ensino Fundamental II, as crianças já conseguem, de modo geral, se concentrar mais, buscar informações de forma independente e concluir projetos com maior facilidade.

As funções executivas mencionadas anteriormente, ou seja, as habilidades que possibilitam reflexões atentas e deliberadas, são desenvolvidas também nessa fase, embora num ritmo menor do que na primeira infância. Paralelamente, por volta dos 11, aos 13 anos de idade, a curiosidade aumenta drasticamente e acontece a transição do pensamento concreto para o abstrato. Essa fase, definida por Piaget como o período operatório-formal, é caracterizada pela capacidade da criança de se concentrar em problemas que não estão associados a um instante específico. Consequentemente, os alunos desenvolvem habilidades cognitivas atreladas à análise de textos e ao desenvolvimento da análise espacial e matemática. Tais habilidades são essenciais na formação de competências para um cidadão global.

Para que seja possível desenvolver todo o potencial da criança é necessário repensarmos a escola e todo o seu Projeto Político Pedagógico. A escola deve ser vista como uma matriz norteadora de aprendizagens, conhecimentos, habilidades e competências onde os alunos participam em interações saudáveis, realizam reflexões diárias e desenvolvem projetos “mão na massa” (estratégia que deve ser mantida até o final da educação básica). Em outras palavras, além de aprender a conhecer, é necessário também que o aluno aprenda a ser, a conviver e a fazer habilidades que envolvem diferentes competências cognitivas, pessoais e intrapessoais.  Afinal, nas palavras do professor Antonio Carlos Gomes da Costa, “educar é criar espaços para que o educando possa empreender ele próprio a construção do seu ser, ou seja, a realização de suas potencialidades em termos pessoais e sociais”.

No entanto, este percurso é também repleto de desafios. Tanto a transição dos Anos Iniciais para os Anos Finais do Ensino Fundamental como a transição dos Anos Finais para o Ensino Médio são etapas extremamente complexas para a maior parte dos alunos.

 

Ensino Fundamental - Anos Finais

 Durante a transição dos Anos Iniciais para os Anos Finais com o intuito de aproveitar e instigar as novas demandas e capacidades em desenvolvimento, há alterações significativas no currículo e organização escolar. O estudante se depara, de repente, com matérias diferentes e mais especializadas. Além disso, outro entrave para os alunos que iniciam os Anos Finais é a mudança súbita do professor polivalente para o professor especialista. Nos Anos Iniciais, os estudantes costumam desenvolver uma relação profunda com seus professores polivalentes, que passam todo o tempo escolar com eles e que, portanto, estão mais aptos a reconhecer as necessidades individuais de cada um, desenvolvendo mecanismos de suporte personalizados. Nos Anos Finais, no entanto, essa relação é rompida. Tudo isso, em conjunto com as mudanças físicas e psicológicas pelas quais estão passando, podem contribuir para uma fase muito desafiadora para as crianças, tanto no campo cognitivo como emocional.

Esses problemas são agravados quando o professor especialista se depara com estudantes que não conseguiram obter níveis de aprendizagem adequados nos Anos Iniciais, pois fica mais difícil que ele, com menos tempo disponível junto ao conjunto dos estudantes, consiga sanar suas dificuldades. O relacionamento que os alunos desenvolvem com os colegas também é afetado durante a transição para os Anos Finais. Devido ao fato de que muitas vezes essa transição acarreta também em uma mudança entre escolas, muitos acabam tendo contato apenas com alunos mais velhos no 6º ano ao passar para os Anos Finais. Consequentemente, enquanto mais velhos estão iniciando a etapa de adolescência, estudantes recém-chegados ainda estão em processo mais delicada do desenvolvimento, o que pode afetar profundamente as relações sociais entre eles.

Adicionalmente, quando existe uma grande distorção idade-série (definida como a defasagem de mais de dois anos entre a idade adequada e o ano que o aluno está cursando), as problemáticas entre os alunos se agravam e podem causar problemas comportamentais. De fato, este tipo de problema é comum nesta fase devido à uma série de fatores, como o nível de liberdade que os alunos recebem (e sua dificuldade de administrá-la), o novo ambiente escolar e a possível influência de alunos mais velhos neste. Algumas crianças começam a se envolver ou experimentar comportamentos de risco de maior seriedade. Não é incomum que utilizem termos violentos ou até que se envolvam em altercações físicas. Casos de bullying também constituem um problema sério que se agrava nesta etapa.

São comuns, também, a perda de motivação e autoestima, particularmente quando a transição ocorre com alunos mais novos. Há também uma grande possibilidade de declínio no desempenho acadêmico; maior pressão sobre relações interpessoais; e maior risco de abandono ao longo dos anos. Estes fatores geram problemas no aprendizado e no fluxo, que muitas vezes perduram até o Ensino Médio, se não forem sanados, podem reverberar ao longo de toda a vida do indivíduo.

Para agravar a situação, muitas escolas oferecem pouco mais do que quatro horas diárias de ensino para os alunos, além das disciplinas que não oferecem a eles as ferramentas ou tempo suficientes para o aprofundamento e o desenvolvimento de competências, muito menos para a colaboração ou protagonismo juvenil. Nestes casos, a oportunidade de incentivar o desenvolvimento dos alunos por meio de projetos curriculares e extracurriculares se perde.

O vídeo abaixo fala a respeito da problemática dos Anos Finais:

 

Mas, com tantos problemas, por onde começar?

São muitas as estratégias e frentes a serem desenvolvidas. É necessário, por exemplo, que os professores conquistem os alunos para que eles acreditem que são capazes de aprender, ensinem a eles como exercer esforço efetivo, façam com que os alunos se sintam reconhecidos e valorizados, e, de forma geral, forneçam instrução de alta qualidade. Embora o ensino por meio de tarefas baseadas em problemas e jogos seja uma das melhores formas de desenvolver o pensamento matemático do aluno, ensiná-lo a abordar tudo isso com uma mentalidade saudável é tão importante quanto a instrução. A mentalidade de crescimento, conceito abordado por Carol Dweck em seu livro homônimo (do inglês “Mindset”), estipula que a inteligência é algo que pode ser desenvolvida por meio da dedicação e do esforço. Dessa forma, aplicar essa mentalidade ensina aos alunos que, ao invés de evitar os desafios, eles devem utilizá-los como oportunidades de crescimento e aprendizado.

Concomitantemente a esse processo, a escola deve trabalhar a autonomia do estudante por meio de atividades extracurriculares de artes e esportes; do desenvolvimento de projetos interdisciplinares planejados por diferentes professores; e da tutoria de projetos que permitam ao aluno vislumbrar seus sonhos de vida. É imprescindível que as escolas ofereçam suporte, tempo e espaço para que os jovens trabalhem esses aspectos e tirem proveito dessa grande oportunidade de desenvolvimento de suas funções executivas, em especial os jovens que não tiveram apoio durante a primeira infância.

 

Ensino Médio

Além da capacidade de formular hipóteses diante do real e do possível, os alunos desenvolvem outras características como: o pensamento proposicional, o isolamento das variáveis individuais e a análise combinatória. Desenvolve-se também o pensamento formal, ou seja, a crescente capacidade para considerar tanto as realidades com as quais o indivíduo entra em contato, como as que podem ou não existir fisicamente. O pensamento formal, como foi chamado por Piaget, permite a conceituação de abstrações e de eventos concretos e tem as seguintes ramificações: enfoque em conclusões lógicas e não em informação factual; raciocínio dedutivo hipotético; e consideração simultânea de mais um aspecto de uma situação e os relacionamentos entre eles.

Nesta etapa, de acordo com a Matriz de referência para o Enem do Ministério da Educação, os adolescentes devem ser capazes de selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema, além de relacionar informações e conhecimentos disponíveis em situações concretas para construir argumentações consistentes.

É no Ensino Médio que os jovens atingem a “adolescência”, um período em que eles constroem a sua identidade, os seus pontos de referência e começam a projetar — e especialmente executar ativamente — seu projeto de vida. Esta é uma fase em que ocorrem modificações corporais e de adaptação a novas estruturas psicológicas e ambientais. Existe a ansiedade de construir o seu próprio "eu" e desenvolver a autonomia. Há um desenvolvimento da independência pessoal e social. Todas essas alterações acabam por repercutir sobre as relações com a família, pares e escola.

Em função do desenvolvimento do pensamento formal, o adolescente possui maior capacidade para elaborar teorias abstratas. Paralelamente, ele afirma sua vida afetiva e busca construir sua personalidade ao passo em que tenta conquistar seu espaço no mundo dos adultos. A capacidade para pensar formalmente não apenas aumenta a habilidade do adolescente de solucionar novos problemas, como também dá margem ao idealismo típico de seu grupo etário.

Devido em grande parte ao acúmulo de dificuldades enfrentadas nos Anos Finais, o Ensino Médio é a etapa do Ensino Básico que mais apresenta empecilhos para o alcance do direito à educação. O Ideb desta etapa está praticamente estagnado há anos. Entre 2005 e 2015, o índice cresceu de 3,4 para 3,7, sendo que a meta era de 4,3 em 2015. O 1° ano do Ensino Médio é a que apresenta o menor percentual de aprovação: em 2012, apenas 71,6% dos alunos foram aprovados. As taxas de reprovação e abandono também são mais elevadas nessa etapa de ensino.

É necessário, portanto, trabalhar de forma mais ativa com os adolescentes que estão retidos no Ensino Fundamental e trazê-los para o Ensino Médio por meio do uso efetivo de medidas focais de intervenção. Adicionalmente, é essencial que sejam trazidos para a sala de aula os alunos excluídos do Ensino Médio, geralmente oriundos de famílias de nível socioeconômico mais baixo, por meio de investimentos direcionados e fomento da relação educador-educando.

 

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