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Engrenagens das Alavancas

Currículo e Instrução

O currículo é um dos insumos mais importantes para desconstruir iniquidades de aprendizagem em uma rede. É por meio dele que se pode regular o que é ensinado para as crianças com o auxílio do material didático, bem como definir quais os valores, as habilidades e as competências a serem desenvolvidos pelos alunos em sala de aula, como competências cognitivas, intrapessoais e interpessoais. O currículo é o norteador de todos os planos de sala de aula e a bússola do sistema escolar, pois é ele quem define o que é ensinado, bem como o tipo de instrução e habilidades que o professor vai desenvolver em sua formação inicial e continuada.

Hoje, o Brasil está prestes a adotar uma Base Nacional Comum Curricular justamente para que esse processo de transformação educacional ocorra em âmbito nacional. Será por meio da tradução da Base em currículos locais e estaduais que o Brasil poderá garantir aprendizagem e desenvolvimento das dez competências gerais esperadas de cada aluno ao fim do Ensino Básico.

Essa é exatamente a teoria da mudança que é proposta pela Base. De acordo com a terceira versão do documento, se “contextualizar[mos] os conteúdos dos componentes curriculares [...], decid[irmos] sobre formas de organização interdisciplinar dos componentes curriculares [...], selecionar[mos] e aplicar[mos] metodologias e estratégias didático-pedagógicas diversificadas” [...], então “vamos assegurar as aprendizagens educacionais essenciais definidas para cada etapa da educação básica” (BNCC Versão 3 p. 12-13). A Base e a construção de currículos são, portanto, políticas focadas na solução de problemas de aprendizagem e equidade.

O mesmo pode ser dito sobre a instrução. Quando nos referimos à instrução, estamos reforçando a importância do tempo pedagógico\tempo em sala de aula (citado no capítulo dois), bem como a instrução oriunda das propostas curriculares da rede e da realidade da própria sala de aula, quando são personalizados os processos de ensino e aprendizagem para dar suporte aos alunos. Em termos gerais, a instrução, quando utilizada corretamente, facilita a aprendizagem do aluno e sua permanência, uma vez que ela permite ao aluno identificar a importância e a relevância daquilo que é ensinado.

 

Professores e Capacitação Profissional

Uma das mais importantes alavancas da mudança é o professor e sua capacitação. O professor é o responsável por conduzir o processo de ensino na sala de aula e, portanto, é a peça-chave na condução de qualquer intervenção na rede, desde a criação de uma possível matriz curricular até o desenho e implementação de um programa de reforço escolar. Um sistema educacional só pode ser transformado junto com os professores, por isso a ênfase em sua formação inicial e continuada. A primeira refere-se à formação obtida nas universidades e a segunda à formação que o professor obtém como profissional da rede.

Para o desempenho da função, precisamos profissionalizar as redes e utilizar três tipos de políticas: políticas para recrutar, políticas para atrair e políticas para motivar educadores de alto-desempenho. Abaixo, listamos algumas propostas oriundas do relatório do Banco Mundial sobre aprendizagem na América Latina, intitulado “Professores Excelentes: Como Melhorar a Aprendizagem dos Estudantes na América Latina e do Caribe”, com enfoque nas políticas para docentes, as quais são divididas nesses três eixos. Cada gestor deve avaliar qual política é mais adequada antes de sua implementação, de acordo com o contexto em que se está inserido.

 

 

Percebe-se, em todos os níveis da Federação brasileira, a necessidade de profissionalizar a rede de docentes por meio da contratação de professores efetivos que atuem 40 horas em uma escola e usem um terço do seu tempo para criar seus planos de sala de aula coletivamente com seus colegas. A criação de um banco de dados com professores principiantes, aprovados anualmente por meio de concursos que avaliam, além de conhecimentos teóricos, a práxis do docente, pode ser utilizada como uma política para fomentar a oferta de profissionais qualificados para a rede.

Em todas as redes de alto-desempenho no mundo, a formação inicial e continuada ocorre dentro da escola, os reais laboratórios de formação para um professor e considerada peças-chave para o desempenho escolar dos alunos. Isso ocorre porque a formação profissional pode torná-los mais efetivos em sala de aula e, dessa forma, tornar o processo de ensino-aprendizagem seja mais dinâmico. Quando o professor consegue, junto com o currículo e os ambientes de aprendizagem citados abaixo, conectar o processo de ensino à realidade do aluno, ele agrega significado à sua jornada na escola, o que muitas vezes acaba por melhorar a frequência, o fluxo e a aprendizagem do estudante.

 

Ambientes de Aprendizagem e Liderança

Outra alavanca da mudança são os ambientes de aprendizagem e a liderança. Ambientes de aprendizagem, que envolvem os aspectos estruturais da rede e tecnologia, devem sempre estar alinhados com a aprendizagem do estudante. Todas as ações das escolas e todos os insumos devem ser geridos para que a aprendizagem ocorra e para que o estudante permaneça na escola. Já o papel da liderança do diretor e dos coordenadores pedagógicos é de suma importância para esse processo, pois eles são os responsáveis por gerir os insumos e conduzir os processos de ensino-aprendizagem nas escolas junto aos professores. Aliás, é por meio da liderança e diálogo do diretor e orientador pedagógico que os professores conseguem criar uma cultura colaborativa com seus pares. A gestão escolar garante que as alavancas trabalhem em conjunto para que a escola possa alcançar seu objetivo de promover a igualdade de aprendizagem e oportunidade para os alunos.  

Sem desconsiderar os possíveis aspectos negativos que a tecnologia pode trazer ao processo de ensino quando geridas corretamente, essas práticas podem ajudar na disseminação de boas práticas na rede, bem como garantir que os professores possam personalizar a aprendizagem por meio do ensino híbrido (que envolve o uso das tecnologias, como computadores e ferramentas online, com foco na personalização das ações de ensino e de aprendizagem) bem como garantir o acesso e permanência do estudante na escola. Hoje existem várias plataformas educacionais que dão suporte ao professor e aos estudantes. Não obstante, é preciso que a gestão escolar esteja atenta aos aspectos financeiros e de sustentabilidade dessas políticas.

Da mesma forma que é necessário formar professores de alto-desempenho, é importante que se formem lideranças eficazes para assegurar que os processos de ensino-aprendizagem ocorram nas escolas. Afinal, um professor efetivo, mesmo tendo diretrizes e um plano de sala de aula impecável, apenas desempenhará seu papel de forma plena quando todas as alavancas estiverem trabalhando em conjunto, auxiliando tanto a ele como aos estudantes nesse processo.

No Brasil, entre outros fatores, vê-se a necessidade de formar lideranças que possam desenvolver um projeto de gestão nas esferas política, pedagógica e comunitária para as escolas, e que deve ser validada por especialistas em educação e gestão, para então serem apreciadas pela comunidade escolar por meio da gestão democrática. O Instituto Votorantim, por exemplo, criou uma lista de competências e habilidades que devem ser trabalhadas e podem ser avaliadas em um gestor, a qual replicamos na tabela abaixo. Você e sua equipe podem criar uma planilha parecida e elaborar indicadores de avaliação para acompanhar o desempenho da liderança.

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