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Desafio

Os Reflexos da Desigualdade Social na Primeira Infância

A desigualdade social é uma variável que atinge todas as faixas etárias, podendo dispor de impactos desde a primeira infância de uma pessoa. Alguns fatores vigentes que abrangem todo o Brasil podem influenciar o desenvolvimento pleno de uma criança, impossibilitando-a de ter acesso a uma série de direitos que a auxiliariam a ter um desenvolvimento adequado.

Camadas mais pobres da sociedade no Brasil tendem a ter um menor acesso a uma série de segmentos públicos que lhes deveria ser provido, como educação completa a níveis fundamentais e médio e também medicamentos que impeçam a contracepção. Alguns dos fatores relacionados a primeira infância que segmentam a desigualdade:

 

Educação

Segundo informações do Relatório de Monitoramento Global da Educação (Relatório GEM) da UNESCO, feito no ano de 2017, aspectos socioeconômicos podem afetar tópicos como a educação na primeira infância. 

Em grande parte do mundo oportunidades de educação na primeira infância são distribuídas de forma discrepante.  O relatório aponta índices de 2010 a 2015 de 52 países de renda média ou baixa, qual um número significativo baixo de crianças de 3 a 4 anos de idade do quintil mais pobre da população frequentavam algum programa de aprendizado. Em contraponto a este indicador, um número elevado de crianças pertencentes ao quintil mais rico da população estavam inseridas em ambiente escolar.

No índice, países com altos índices de desigualdade social demonstraram índices inquietantes relativos à inserção de crianças nas escolas. A exemplo, Sérvia e Nigéria apontaram a participação de mais de 80% das crianças mais ricas em ambiente escolar, em contraste com a participação de 10% das crianças mais pobres.

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       Foto: ONU.

O índice considerou, também, a influência do ambiente doméstico qual a criança estava inserida. Foi estimado que em quase metade dos países que forneceram dados para a pesquisa, ao menos um quarto das crianças entre 36 e 59 meses de idade não tinham seus tutores envolvidos em quatro ou mais atividades para promover seu aprendizado escolar – como incentivo à alfabetização, calculo ou atividades artísticas. Foi concluído, através do índice, que as famílias mais pobres tinham menos probabilidade que as mais ricas de se envolverem nas respectivas práticas.

Em um contexto de sociedade qual a pobreza e a desigualdade são notórias, as consequências da desigualdade social são expressivas em quem ali se insere. Crianças nascidas em um cenário de pobreza têm maior probabilidade de se transformarem nas unidades familiares pobres do amanhã.

A condição de pobreza faz com que uma parcela expressiva das crianças e jovens não frequentem a escola apropriadamente, tendo a necessidade de inserção precoce no mercado de trabalho e, muitas vezes, abandonando seus sonhos de um futuro melhor e mais humano.¹

Os reflexos da desigualdade são intensos. Em reportagem da Folha de São Paulo de 2015, constatou-se que 22% dos jovens de 15 a 17 anos estavam fora da escola.  Cerca de 56% dos jovens de 15 a 17 anos inseridos no ambiente escolar estavam atrasados, ainda no ensino fundamental. Mais da metade dos alunos que abandonaram os estudos o fizeram antes mesmo de chegar ao ensino médio. Ainda segundo a reportagem, o abandono escolar onera o país em cerca de R$ 7 bilhões por ano.

 

Maternidade precoce: as mães jovens da periferia

A idade ideal para ser mãe, de acordo com especialistas, é de 25 a 35 anos. Contudo, a maternidade precoce é uma realidade a ser enfrentada no Brasil. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE publicado em 2015, a maioria das meninas que engravidam na adolescência são pobres e tem menos escolaridade.

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Foto: Mais Goiás.

No ano de 2014, a cada mil mulheres de 15 a 19 anos, 60,5 tinham ao menos um filho. Dentro desta estimativa, 35,8% das mulheres moravam no Nordeste e 69% se declaravam pretas ou pardas. A média de escolaridade era de 7,7 anos (85% não completaram o ensino médio); somente 20,1 ainda estudavam; 59,7% não estudavam nem trabalhavam; e 92,5% cuidavam dos afazeres domésticos por uma média de 27,1 horas semanais.

Em matéria do blog do Dr. Drauzio Varella, foi apontado que percentuais de adolescentes com filhos evidenciam a desigualdade social no Brasil, uma vez que estes revelam que a maior parte das mães adolescentes tem pouca escolaridade, são negras e vivem nas regiões economicamente menos desenvolvidas do país.

Ainda segundo o portal especialista, os fatores que levam a gravidez precoce podem ser remetidos ao pouco conhecimento de utilização de métodos contraceptivos, quando não o uso errôneo do recurso, acarretando na eficácia reduzida deste. Além disso, o acesso restrito a estes métodos (pílulas anticoncepcionais e do dia seguinte) em algumas regiões dificulta o uso de contraceptivos, uma vez que nem todos os postos de saúde fornecem este ofício.

Essas adolescentes também têm baixa perspectiva em relação à escolaridade e à futura inserção no mercado de trabalho. Com isso, o papel social que lhes sobra é o de mãe. (...) Para as mulheres mais ricas, a maternidade é, na maioria das vezes, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas? Todos deveriam ter direito de exercer sua sexualidade e decidir quando e quantos filhos desejam ter, e contar com o acesso a métodos que lhe assegurassem esse direito. 

Segundo o portal Guia Infantil, existe uma série de circunstâncias nocivas que dificultam a maternidade na adolescência. Entre os problemas sofridos pelas mães jovens, o portal menciona:

  • Medo de serem rejeitadas socialmente: uma das consequências da adolescência e a gravidez, é que a jovem se sente criticada pelas pessoas do seu meio e tende a se isolar do grupo.
  • Rejeição ao bebê: são crianças e não desejam assumir a responsabilidade, o tempo e as obrigações que significa ser mãe. No entanto, isso também faz com que elas se sintam culpadas, tristes e diminui sua autoestima.
  • Problemas com a família: comunicar a gravidez na família, muitas vezes é motivo de conflito e inclusive rejeição dentro da própria família.
  • Problemas na educação: Os filhos de mães e pais adolescentes podem sofrer maior taxa de fracasso escolar, problemas de aprendizagem ou inclusão social.

Para enfrentar a problemática da maternidade precoce programas de conscientização de adolescentes, bem como a disponibilização gratuita de métodos contraceptivos, podem ser apontados como fatores que reduziriam o percentual de mães jovens no país.

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