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Desafio

Boas práticas | Como a Finlândia resolveu a questão das pessoas em situação de rua

*Esta reportagem foi traduzida do portal de notícias Huffington Post

 

Quatro anos atrás, Thomas Salmi estava morando e alimentando seu vício em álcool nas ruas da capital da Finlândia, Helsinque.

Thomas teve uma infância difícil e não pode morar em casa porque seu pai tinha problemas com agressão. Aos 21 anos, estava desabrigado. Segundo Thomas:

“Eu perdi a sensação de uma vida normal. Fiquei deprimido, agressivo, com raiva e abusava muito do álcool. (...) Eu pensei que não me importaria se fosse para a cadeia, uma vez que já estava na neve e no frio”.

Ele estava dormindo na estação de trem de Helsinque quando um assistente social o encontrou e disse que poderia o ajudar. Thomas foi colocado em contato com o Helsinki Deaconess Institute (HDI), uma organização finlandesa sem fins lucrativos que presta serviços sociais. Um ano depois, se mudou para Aurora-Tola, uma das 125 unidades administrada pela HDI.

Thomas é um beneficiário do prestigiado programa Housing First do Governo do Estado da Finlândia, que acontece há mais de uma década.

A ideia da Finlândia é simples. Para resolver a falta de moradia, o governo começa dando ao indivíduo uma habitação. Se o beneficiário quer beber, ele pode; se o mesmo quer usar drogas, tudo bem também. Os serviços de apoio são disponibilizados para tratar o vício, a saúde mental e outros problemas, visando auxiliar as pessoas em situação de rua a recuperarem suas vidas, cedendo desde a assistência na documentação até a obtenção de um emprego.

A casa cedida pelo Housing First na Finlândia é uma mistura de apartamentos padronizados espalhados pela cidade. O país investiu muito para realizar o projeto: um antigo edifício do Exército da Salvação, por exemplo, foi convertido de um abrigo de emergência com 250 leitos para uma unidade habitacional com 81 apartamentos.

Os moradores anteriormente desabrigados, que agora são beneficiários do programa, têm um contrato de aluguel como qualquer outra pessoa. Eles pagam aluguel de seus próprios bolsos ou através dos benefícios proporcionados pelo Governo Federal.

 

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Foto: Um dos apartamentos da iniciativa de habitação do país. Retirada do Huffington Post

 

A abordagem está funcionando. Hoje, a falta de moradia é crescente em toda a Europa, enquanto os números na Finlândia estão caindo. Em 1987, havia cerca de 18.000 pessoas desabrigadas no país. Em 2017, havia 7.112 pessoas desabrigadas, das quais apenas 415 moravam nas ruas ou em abrigos de emergência. A grande maioria (84%) estava temporariamente com amigos ou parentes. Entre 2008 e 2015, o número de pessoas que não tinham um lugar para morar caiu em 35%.

O motivo? A Finlândia enxerga a falta de moradia como um problema de habitação e uma violação dos direitos essenciais, sendo também um problema social resultante de questões pessoais.

No mundo inteiro, as pessoas desalojadas são instruídas a pararem de beber ou usar drogas como uma pré-condição para terem moradia cedida pelo governo. Contudo, sabe-se hoje que há uma grande dificuldade em acabar com o vício nas ruas ou em abrigos temporários. Segundo Juha Kaakinen, CEO da Y-Foundation:

“A atitude finlandesa é a de que temos que ajudar as pessoas que estão na posição mais difícil, seja qual for a razão pela qual se tornaram sem-teto. Entendemos muito bem que as principais razões por trás da falta de moradia são razões estruturais."

 

Outras medidas

Em Espoo, cidade do interior da Finlândia, uma unidade habitacional fica de frente para um lago. Trata-se de um pequeno empreendimento construído em 2014, que abriga cerca de 35 pessoas que já foram desabrigadas em 33 apartamentos.

Neste empreendimento, 8 enfermeiros trabalham em turnos para garantir que sempre tenha alguém disponível 24 horas por dia. Há, também, um coach e um coordenador de atividades de trabalho, que organizam ocupações para quem pode e quer fazer. As atividades podem ser qualquer coisa, desde cozinhar refeições até empacotar refletores a € 2 (US $ 2,30) por dia.

 

Os resultados e novos desafios

O sucesso da Finlândia em reduzir a falta de moradia atraiu muita atenção internacional. Foi Jan Vapaavuori, ex-prefeito de Helsinque, quem dirigiu a primeira iniciativa de habitação. Desde então, políticos de todos os segmentos da Finlândia continuaram a apoiar o projeto.

A redução dos índices de pessoas em situação de rua tem sido um enorme esforço de colaboração, que inclui cidades, empresas, ONGs, entre outros.

Embora seja caro construir, comprar e alugar casas para pessoas desabrigadas, além de fornecer os serviços de apoio necessários, os idealizadores da política dizem que os investimentos se pagam. Estudos utilizados pelo governo descobriram que abrigar um sem-teto a longo prazo poupa cerca de 15 mil euros por ano.

Nenhum dos defensores do Housing First alegam que a abordagem é livre de possíveis problemas, mas advogam que é uma base que possibilita as pessoas em situação de rua a reconstruírem suas vidas.

A Finlândia não é o único país que segue esta iniciativa: ela já está sendo usada em países como Dinamarca, Canadá, Austrália e também nos Estados Unidos.

Entretanto, o país ainda tem desafios a serem superados. A demografia da população de rua está mudando à medida que novos grupos de pessoas estão se inserindo neste contexto.

Mulheres, por exemplo, são hoje um grupo em crescimento nas ruas, representando agora 23% das pessoas em situação de rua. A violência doméstica e o aumento do uso de substâncias estão entre as razões que fomentam o desabrigo feminino. Grupos de jovens também estão se inserindo neste contexto, uma vez que estão achando difícil conseguir moradias a preços acessíveis no país.

 

+ Para ler mais sobre a iniciativa Housing First, acesse o site oficial do programa. 

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