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FERRAMENTAS | Artigo - Ser jovem em Paraty: narrativas sobre reconhecimento e participação

Por Beatriz Saks Hahne

Pesquisa realizada no mês de agosto de 2018 pelo Cenpec, por meio de parceria firmada com Comunitas e a Prefeitura de Paraty, acessou percepções e experiências dos jovens paratienses, tomando-os como narradores do cotidiano. Além deles, foram também ouvidos trabalhadores, representantes do poder público e da sociedade civil, somando ao mapeamento das experiências, dos desafios e das demandas da juventude local.

Essa imersão de dez dias que investigou vivências, mais do que dados quantitativos, alcançou a dimensão da sensação: importou que fossem escutados os jovens para que nos dissessem como, hoje, se percebem sendo jovens em Paraty. A narrativa, que não se trata do fato em si, mas de como a experiência é apreendida pelo vivente, carrega a potência de comunicar como as pessoas se formam na relação com o mundo. Como estão absorvendo e significando suas experiências coletivas, tornando-as próprias. A escuta de suas falas pode nos fornecer pistas valiosas sobre uma dimensão que apenas eles poderiam nos falar: o que significa o tempo que estão vivendo e para onde gostariam de caminhar.

Como em outros territórios, também ali esse tempo de vida é ser atravessado por uma pluralidade de circunstâncias e sentidos: trabalho, vida sexual, estudos, lazer e cultura são alguns dos temas que apareceram na pesquisa realizada, sempre articulados a demandas de acesso aos direitos individuais e coletivos. O amor pela cidade foi tema fortemente presente, por exemplo, com o desejo dos jovens de que seja possível lá permanecerem após a conclusão do ensino médio, quando precisam buscar a universidade em outros municípios. Falaram, também, sobre a vontade de poderem trabalhar na e pela cidade a partir do que sabem fazer e daquilo que desejam aprender. Encontramos na pesquisa ideias sobre criatividade, fortalecimento das lutas, conhecimento das legislações, administração dos próprios projetos e pertencimento aos territórios. Os jovens sabem onde estão os buracos e nos falam sobre eles. Mais uma vez, nos fornecem pistas para que possamos fazer, com eles, alianças.

Em seus relatos predominou o desejo de que suas ideias sejam tomadas como disparadoras de ações na cidade. Falaram sobre desafios e deram sugestões: 1) garantia de empregos articulados a formas de atuar e modificar o mundo, não sendo somente um meio para provimento financeiro; 2) serem aceitos e pertencentes aos locais pelos quais circulam;3) participarem de atividades culturais gratuitas e que dialoguem com seus interesses; 4) terem mais oportunidades de lazer, com a garantia de poderem circular pela cidade em segurança a qualquer hora.

Nas entrevistas realizadas, tanto jovens quanto adultos situaram experiências marcadas por diferentes formas de violências físicas, estruturais e simbólicas. Com eles, acessamos a percepção generalizada de que há duas cidades de Paraty: uma dos privilegiados e outra dos excluídos (também poderíamos dizer, periféricos).

A periferia de Paraty nem sempre é distante; para muitos, está já no entorno do centro histórico, palco dos eventos que levam quantidade incrível de turistas à cidade quase mensalmente. Essa informação cabe para nos alertar para duas questões que dizem respeito, com frequência, à violência vivida e praticada pela juventude: 1) a marcada e visível desigualdade social não acarreta somente na vulnerabilização econômica dos sujeitos, mas os coloca na posição de indignidade, de perceberem-se indesejados, levando à impossibilidade, em muitos casos, de autocuidado e de cuidado com os demais e 2) na condição de indesejados, muitas vezes, pouco importará a distância física entre o bairro e o centro histórico, pois a exclusão de direitos destitui dos sujeitos a possibilidade de imaginarem que certos locais são seus, também.

Como consequência dessas duas questões, temos um importante ponto sobre a violência, percebido em praticamente qualquer território – e, como vemos a partir dos achados da pesquisa, também em Paraty: quando falamos em pertencimento, não falamos apenas sobre o direito de circular pelos espaços ou de poder exercer a expressão das próprias ideias e ideais. Isso é muito e é sempre urgente, também, que sintamos em nosso corpo o desejo do outro sobre nossa existência. Um dos mais potentes efeitos da exclusão é o de desacreditarmos que seja possível outra forma de vida, uma que seja construída por nossas mãos e na relação com o mundo. Portanto, fortalecer condições para que os jovens estejam nos espaços a partir da experimentação de quem são e de sua identidade é fundamental para o autocuidado e para o fortalecimento dos vínculos sociais. A juventude pede passagem incessantemente - olhos e ouvidos atentos!

Apoiá-los naquilo que fazem, sabem e desejam, com reconhecimento público, pode ser um meio de disputar suas vidas com o universo criminal e oportunizar a eles vivências transformadoras. A questão da geração de renda reside nessas ligações e possibilidades, por exemplo. A participação pública pode ser uma ação transformadora, uma vez que são jovens e estão desenvolvendo suas percepções sobre si e sobre o mundo. Nessa lógica, tomamos a juventude como pluralidade, lembrando que realidades distintas produzem necessidades diferentes.

Frente a certo endurecimento da vida, que podemos notar pela violência produzida e sofrida ou, ainda, pelas palavras que não podem ser ditas - um dos possíveis efeitos da vida em meio à violência é o silenciamento -, poder compreender, ao ver, que o vivido é nosso, do nosso corpo, e, também, do corpo social, não é pouco. Ver-se no outro não para igualar-se, mas para encontrar casa fora de si, porque essa outra casa não nos é estranha. Quer dizer, por exemplo, que certo sentimento estrangeiro habita o mundo e, por isso, nos faz falar sobre o mundo. Esse movimento pode permitir que sejamos atores e não apenas sujeitos vividos.

Na articulação juventude-direitos sociais, propor novos significados para aquilo que a juventude vive é desafio para todos que a têm como preocupação. Como o município possui uma riqueza incrível de culturas e histórias daqueles que ali nasceram e vivem, a escuta atenta e individualizada é algo que poderá fortalecer a participação coletiva e a vida social. A Coordenadoria da Juventude de Paraty tem atuado como importante canal de escuta dos jovens nos mais diferentes territórios, tendo como um dos efeitos mais imediatos o reconhecimento dessa rica diversidade de demandas e de fazeres já constituídos. A participação política, uma das solicitações que os jovens relataram durante a pesquisa, não pode ser privilégio. Tem a ver com transformação, construção e criação de sentido.

O jovem terá fortalecidos seus planos e passos ao saber-se objeto de atenção e cuidado, o que implica, necessariamente, em pensar como se dão as relações cotidianas. Há na experimentação coletiva dos espaços físicos – praças, escolas, praia, cinema, festas, quilombos - e simbólicos – palavra, escuta, troca de saberes - uma dimensão de aprendizagem que somente se dá na troca. Ações que fortaleçam o investimento social e do poder público, como as que têm sido realizadas nos últimos meses, são afirmações do desejo de que os jovens não apenas sobrevivam, mas sintam-se cuidados, investidos e sejam reconhecidos enquanto sujeitos transformadores.

 

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